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02/04/2009
45
anos do Golpe: memória da luta e resistência do campesinato
na Ditadura Militar

"Agora que o País se livrou do fantasma da
comunização, podemos repetir o que vínhamos dizendo
exaustivamente: todo comunista é covarde e mau caráter.
(...) Enfim, começa hoje uma nova era para o Brasil.
Confiemos no espírito público dos homens que salvaram a
democracia brasileira (...)". Foi com essas palavras que um
dos jornais de maior circulação da época anunciou em seu
editorial o novo regime político imposto aos brasileiros em
1964: a ditadura militar.
Ao amanhecer o dia 1° de abril daquele ano, o
Brasil viveria, por um período que duraria 21 anos, um dos
momentos mais nefastos na história do país. Após exatos 45
anos, setores que patrocinaram a ditadura insistem em
classificá-la de "ditabranda" ou de uma época de pequenos
excessos cometidos. Os movimentos sociais e as organizações
populares não esquecem o horror vivido e as conseqüências
políticas ocasionadas por aquele regime.
Momentos de efervescência política nos anos
que antecederam o Golpe
"Os anos que antecederam o `64´ foram de uma
efervescência política muito grande no Brasil, sobretudo no
Nordeste e no campesinato", comenta o Padre Hermínio Canova,
da Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
e que acompanhou a resistência e luta das organizações
camponesas que iam surgindo até então. Para o Padre
Hermínio, aquele período anterior ao Golpe foi um marco para
a luta dos trabalhadores brasileiros, um período de ascenso
de massas, potencializado ainda mais pela referência à
Revolução Cubana e às reformas de base anunciadas por
Goulart.
A mobilização do campesinato também foi um
elemento fundamental para o avanço das lutas populares
naquele período. No início dos anos 60, consolidavam-se
organizações como as Ligas Camponesas que, sobretudo no
Nordeste foram importantes instrumentos de organização e de
atuação do campesinato.
O golpe interrompe o processo de luta do
campesinato
As organizações e lideranças camponesas que
faziam a defesa da Reforma Agrária e dos direitos humanos
foram massacradas com a Ditadura Militar. O integrante do
Núcleo de Documentação dos Movimentos Sociais da UFPE e
preso político no regime, o professor de Comunicação Social,
Luis Momesso, enfatiza que a ditadura teve como um dos seus
principais eixos de apoio o latifúndio - que se via ameaçado
pelas mobilizações populares. Lideranças como Francisco
Julião e João Pedro Teixeira, das Ligas Camponesas de
Pernambuco e da Paraíba foram alguns dos símbolos da
resistência e luta no Nordeste e se consolidaram como
"elementos perigosos" para as forças reacionárias. Ainda
dois anos antes do golpe, João Pedro Teixeira foi
brutalmente assassinado, enquanto Francisco Julião foi
perseguido, preso e exilado nos anos da ditadura.
As medidas impostas pela Ditadura para o
campo foram logo postas em prática. O regime intensificou o
avanço do capital no campo e o fortalecimento do latifúndio,
através da entrada de maquinários modernos e agrotóxicos.
Foi anulada a lei de 1962, que controlava remessas de lucros
para o estrangeiro, dando força e permitindo a entrada em
larga escala das multinacionais no país. "Esse é considerado
um dos períodos em que latifundiários, empresários e
usineiros mais expulsaram os camponeses, posseiros,
indígenas e quilombolas de suas terras", afirma Hermínio. A
massa de camponeses expulsa do campo, desempregada e sem
nenhum direito garantido, migravam para as cidades sem
perspectivas de vida e emprego.
Como forma de mascarar as tensões no campo e
colocar um freio nos movimentos campesinos, o governo de
Castelo Branco emitiu, em 1965, o estatuto da Terra. Mesmo
contendo avanços, como falar pela primeira vez da função
social da propriedade e da desapropriação para fins de
Reforma Agrária, o estatuto não tinha o objetivo de sair do
papel e ainda conseguia acobertar o latifúndio em um único
item que assegurava que "a propriedade declarada empresa
rural não poderia ser desapropriada".
A repressão aos que se posicionavam contra o
Regime tornou-se ainda mais brutal em 1968, com o Ato
Institucional n° 5 (AI 5). O decreto deu ao regime militar
poder absoluto. A partir daí, as organizações de caráter
político de oposição ao regime foram barbaramente
massacradas e perseguidas. "Nos Sindicatos de Trabalhadores
Rurais mais atuantes, a diretoria era substituída por
interventores do estado, os chamados `pelegos´ e lideranças
camponesas foram brutalmente assassinadas, presas e
torturadas", relembra Hermínio.
O campesinato seguiu resistindo ao cenário de
terror e violência protagonizado pela Ditadura Militar.
Segundo Hermínio "umas das áreas mais cobiçadas para o
avanço do capital na ditadura era a pré-Amazônia - que
compreende os estados de Tocantins, Goiás, Mato Grosso e
Mato Grosso do Sul." Foi naquela região, em 1975, em plena
ditadura militar, que surgiu a Comissão Pastoral da Terra,
como resposta à grave situação dos trabalhadores rurais,
desenvolvendo um serviço pastoral e contribuindo com a luta
e organização do campesinato contra a implementação do
regime, que fazia o jogo dos interesses capitalistas
nacionais e transnacionais.
Solidariedade e resistência no campo em
Pernambuco
No estado, a luta dos camponeses e camponesas
violentados pela ditadura militar contou com a solidariedade
e a dedicação de pessoas que também seriam consideradas
figuras indesejadas da Ditadura Militar Brasileira. Dom
Helder Câmara, designado para ser o arcebispo de Olinda e
Recife, chegou à capital pernambucana nos primeiros dias do
Golpe Militar. Por sua atuação social e política de repúdio
ao Regime Militar, o "Arcebispo vermelho", como era
denominado na época, foi perseguido e censurado pelos
militares. Dom Helder ainda conseguiu realizar várias
viagens ao exterior onde denunciava as violações de direitos
humanos cometidas pela ditadura brasileira.
Outro lutador do povo que sempre esteve
ligado às lutas do campesinato foi Gregório Bezerra. Nascido
na região do Agreste do estado pernambucano, Gregório
começou a trabalhar nas lavouras de cana com quatro anos
para ajudar a família. Integrante do PCB, foi preso político
e exilado durante o regime. Faleceu em outubro de 1983,
deixando um legado de luta e resistência para Pernambuco e o
Brasil.
45 anos depois - continua a perseguição
política aos movimentos de luta pela terra
Após 45
anos, camponeses e camponesas sã insistentemente
criminalizados por levantarem a bandeira da Reforma Agrária.
Casos mais recentes - como o fechamento das escolas
itinerantes do MST no Rio Grande do Sul, em fevereiro deste
ano, e a criminalização de lideranças de organizações do
campo, como o caso do advogado da CPT, José Batista Afonso,
são exemplos de que a perseguição política aos movimentos de
luta pela terra persiste. Para o professor Momesso "A
ditadura não existe mais enquanto regime, mas o capitalismo
continua. As mesmas pessoas que patrocinavam a ditadura
estão hoje no Governo, como Sarney. O capital não tem
projeto para a sociedade e, nesse contexto, a tendência dele
é radicalizar pela violência, sempre foi. Quando não é pela
via do estado, é via milícias armadas contratadas pelos
latifundiários. Nós estamos em uma democracia que é
violência, é ditadura também", finaliza Momesso. |
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