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Trabalho[1]

Adriana Almeida

O mundo do trabalho, ação pelo qual homens e mulheres articulam as dimensões de sua humanidade como a afetividade, a energia bio-física, o pensamento, cuidado, os aprendizados, os instrumentos e meios para a produção de bens e elementos necessários a existência humana subjetiva e coletiva. Sendo este a essência da vida sob a qual ordena as formas de organização social, discutir o trabalho como ‘centralidade do mundo’, significa entender a concretude de nossas existências, tanto do presente como do passado e do futuro, e, inclusive, entender o homem e a mulher como protagonista universal, social, cultural, econômico e político. O trabalho transformou-se no fundamento ontológico[2] do ser social.

Relações que aproximam como distanciam o ser humano, pois o trabalho não é obra de um indivíduo, mas da cooperação entre homens e mulheres, só se objetiva socialmente, responde as necessidades sócio-históricas, produz formas de interação, desenvolve sociabilidades, produz representações, costumes - cultura.

Buscando entender mais o seu significado, o trabalho é uma atividade teleológica[3] – busca uma finalidade: produção de valores (de uso e de troca), de relações, de sociabilidades.

Por outro lado, o trabalho pode ser também um mecanismo de alienação[4], exploração, submissão, opressão, ou seja, desumanização. Este processo de alienação no trabalho ocorre quando o ser humano não se reconhece mais naquilo que faz e passa a fazer um conjunto de tarefas sem sentido.

Contudo, o trabalho pode se converter em instrumento de emancipação, O trabalho para Marx, nesta perspectiva emancipatória tem a ver com a própria dignidade humana.

As transformações sociais do mundo humano estão diretamente relacionadas com as transformações no mundo do trabalho e na subjetividade de quem realiza este trabalho, o denominado trabalhador, a trabalhadora.

No processo histórico a compreensão do trabalho, se desenha como a atividade humana e social desde as comunidades primitivas até a sociedade contemporânea. Em resposta às necessidades básicas (fome, abrigo, segurança/defesa, festas, ritos, entre outros) o trabalho na antiguidade não refletia valor em si, não se separava dos demais aspectos da vida social das comunidades primitivas.  Porém, já se praticava uma separação do trabalho por sexo e idade, em uma noção de satisfazer as necessidades e para garantir o processo de aprendizagem e reprodução de dado grupo social. Onde o trabalho era, acima de tudo, uma atividade social, pois estava voltado para o bem da coletividade e não para um processo de acumulação e era desenvolvido de forma coletiva.

Mas dado o momento em que o trabalho passa a ser visto como atividade ‘orientada’ para a acumulação opera-se aí uma nova divisão do trabalho que vai substituir a divisão por sexo e idade. Divisão vista como um processo natural, dada pela competência das pessoas, por uma superioridade ou inferioridade natural, que na maioria das vezes era, e é dada por uma condição biológica – macho e fêmea.

No momento em que o trabalho se torna produtor de riqueza, visto como a fonte de riqueza de uma Nação (posse de recursos naturais, força bio-física humana, da balança comercial favorável, novas tecnologias,...), no processo de implantação do sistema capitalista, o trabalho se transforma em artigo de compra e venda da força de trabalho – física e mental que é vendida em troca de um salário que é “mínimo”.  O resultado do trabalho realizado, ou seja, a riqueza produzida pelos/as trabalhadores/as não fica com quem produziu, mas a riqueza é apropriada pelo dono do capital, ocorrendo assim, a exploração no trabalho.

Com a implantação de um mercado livre de: natureza, capital, produtos e mão-de-obra, o trabalho também passa a obedecer às leis do mercado (lei da oferta e da procura). Portanto, vendem sua autonomia e passam a estar sujeitos às alienantes regras, orientações e aos padrões do mercado.

Outra questão importante nesse debate do trabalho volta-se aos seus sinônimos de negação. Hoje incide um deslocamento da essencialidade da existência do ser humano no que se refere ao trabalho como idealizador do SER.

O que ocorre é uma verdadeira reviravolta no significado da existência ou o ‘não ao trabalho’. Teria se tornado algo raro em nossa sociedade?

Prova disso são as expressões de emprego, tarefas, serviço, afazeres,..., rotina, essas pré-definições de trabalho adotadas no mundo camponês. Designadas pelo sistema capitalista como sendo o avanço do progresso de desenvolvimento político e financeiro, das melhores remunerações, da inclusão social, das políticas publicas, etc.

Quando se esvazia, perde seu mistério, o trabalho não mais contribui para a realização do ‘Ego’ e não confere sentido, totalidade à vida dos homens e das mulheres da sociedade contemporânea, pois trabalho por realização pessoal não é importante para o capitalismo, dado pelo ‘senso comum’ dessa sociedade.

Na continuidade do exercício de análise do trabalho no que se volta este estudo do fenômeno da invisibilidade do trabalho da mulher camponesa em seu mundo camponês, ou seja, a unidade camponesa de produção - a propriedade.

A complexidade de contextualizar o que é trabalho no mundo da mulher camponesa, expressa a hierarquização de poder na divisão do trabalho, e a invisibilidade com um fator dessa hierarquização. Percebe que a distinção entre trabalho ‘pesado’ desenvolvido pelo homem e trabalho ‘leve’ realizado pela mulher não se dá a uma qualidade do próprio esforço despendido.  Contudo o que se vislumbra é o sexo de quem o realiza, de tal modo que qualquer trabalho é considerado leve se feito por mulher, por mais cansativo, desgastante que seja. 

O mesmo fenômeno se repete na divisão entre trabalho reprodutivo (visto como doméstico) e trabalho produtivo. É simples, se ela vai para a roça com o marido, é trabalho produtivo, mesmo que o que for colhido seja tanto para vender como para ser consumido na própria família.  Se cuida da horta e das galinhas sozinha, é trabalho doméstico, se vende ovos de vez em quando, um pé de alface, é tão pouco que não se considera. Indo além, se diz que ‘os homens trabalham oito horas e as mulheres quatro, é devido o serviço de casa’, a produção de alimentos, os/as filhos/as, a roupa,..., é doméstico se é atribuição da mulher indeferindo o espaço, sendo executado pela mulher basta.


[1] Fonte: A invisibilidade do trabalho e da geração de renda de mulheres camponesas do MMC-RS, Almeida, 2009, p.27 a 32.

[2] Segundo Nogueira, 2006, p.140.

[3] Segundo Nogueira, 2006, p.140.

[4] Para aprofundar o processo de alienação no trabalho Marx faz uma análise profunda a este respeito na Obra “Manuscritos Econômicos e Filosóficos.

 
 

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