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Trabalho
Adriana
Almeida
O mundo
do trabalho, ação pelo qual homens e mulheres articulam as
dimensões de sua humanidade como a afetividade, a energia
bio-física, o pensamento, cuidado, os aprendizados, os
instrumentos e meios para a produção de bens e elementos
necessários a existência humana subjetiva e coletiva. Sendo
este a essência da vida sob a qual ordena as formas de
organização social, discutir o trabalho como ‘centralidade
do mundo’, significa entender a concretude de nossas
existências, tanto do presente como do passado e do futuro,
e, inclusive, entender o homem e a mulher como protagonista
universal, social, cultural, econômico e político. O
trabalho transformou-se no fundamento ontológico
do ser social.
Relações
que aproximam como distanciam o ser humano, pois o trabalho
não é obra de um indivíduo, mas da cooperação entre homens e
mulheres, só se objetiva socialmente, responde as
necessidades sócio-históricas, produz formas de interação,
desenvolve sociabilidades, produz representações, costumes -
cultura.
Buscando
entender mais o seu significado, o trabalho é uma atividade
teleológica
– busca uma finalidade: produção de valores (de uso e de
troca), de relações, de sociabilidades.
Por outro
lado, o trabalho pode ser também um mecanismo de alienação,
exploração, submissão, opressão, ou seja, desumanização.
Este processo de alienação no trabalho ocorre quando o ser
humano não se reconhece mais naquilo que faz e passa a fazer
um conjunto de tarefas sem sentido.
Contudo,
o trabalho pode se converter em instrumento de emancipação,
O trabalho para Marx, nesta perspectiva emancipatória tem a
ver com a própria dignidade humana.
As
transformações sociais do mundo humano estão diretamente
relacionadas com as transformações no mundo do trabalho e na
subjetividade de quem realiza este trabalho, o denominado
trabalhador, a trabalhadora.
No
processo histórico a compreensão do trabalho, se desenha
como a atividade humana e social desde as comunidades
primitivas até a sociedade contemporânea. Em resposta às
necessidades básicas (fome, abrigo, segurança/defesa,
festas, ritos, entre outros) o trabalho na antiguidade não
refletia valor em si, não se separava dos demais aspectos da
vida social das comunidades primitivas. Porém, já se
praticava uma separação do trabalho por sexo e idade, em uma
noção de satisfazer as necessidades e para garantir o
processo de aprendizagem e reprodução de dado grupo social.
Onde o trabalho era, acima de tudo, uma atividade social,
pois estava voltado para o bem da coletividade e não para um
processo de acumulação e era desenvolvido de forma coletiva.
Mas dado
o momento em que o trabalho passa a ser visto como atividade
‘orientada’ para a acumulação opera-se aí uma nova divisão
do trabalho que vai substituir a divisão por sexo e idade.
Divisão vista como um processo natural, dada pela
competência das pessoas, por uma superioridade ou
inferioridade natural, que na maioria das vezes era, e é
dada por uma condição biológica – macho e fêmea.
No
momento em que o trabalho se torna produtor de riqueza,
visto como a fonte de riqueza de uma Nação (posse de
recursos naturais, força bio-física humana, da balança
comercial favorável, novas tecnologias,...), no processo de
implantação do sistema capitalista, o trabalho se transforma
em artigo de compra e venda da força de trabalho – física e
mental que é vendida em troca de um salário que é “mínimo”.
O resultado do trabalho realizado, ou seja, a riqueza
produzida pelos/as trabalhadores/as não fica com quem
produziu, mas a riqueza é apropriada pelo dono do capital,
ocorrendo assim, a exploração no trabalho.
Com a
implantação de um mercado livre de: natureza, capital,
produtos e mão-de-obra, o trabalho também passa a obedecer
às leis do mercado (lei da oferta e da procura). Portanto,
vendem sua autonomia e passam a estar sujeitos às alienantes
regras, orientações e aos padrões do mercado.
Outra questão importante nesse
debate do trabalho volta-se aos seus sinônimos de negação.
Hoje incide um deslocamento da essencialidade da existência
do ser humano no que se refere ao trabalho como idealizador
do SER.
O que ocorre é uma verdadeira
reviravolta no significado da existência ou o ‘não ao
trabalho’. Teria se tornado algo raro em nossa sociedade?
Prova disso são as expressões
de emprego, tarefas, serviço, afazeres,..., rotina, essas
pré-definições de trabalho adotadas no mundo camponês.
Designadas pelo sistema capitalista como sendo o avanço do
progresso de desenvolvimento político e financeiro, das
melhores remunerações, da inclusão social, das políticas
publicas, etc.
Quando se esvazia, perde seu
mistério, o trabalho não mais contribui para a realização do
‘Ego’ e não confere sentido, totalidade à vida dos homens e
das mulheres da sociedade contemporânea, pois trabalho por
realização pessoal não é importante para o capitalismo, dado
pelo ‘senso comum’ dessa sociedade.
Na continuidade do exercício
de análise do trabalho no que se volta este estudo do
fenômeno da invisibilidade do trabalho da mulher camponesa
em seu mundo camponês, ou seja, a unidade camponesa de
produção - a propriedade.
A complexidade de
contextualizar o que é trabalho no mundo da mulher
camponesa, expressa a hierarquização de poder na divisão do
trabalho, e a invisibilidade com um fator dessa
hierarquização. Percebe que a distinção entre trabalho
‘pesado’ desenvolvido pelo homem e trabalho ‘leve’ realizado
pela mulher não se dá a uma qualidade do próprio esforço
despendido. Contudo o que se vislumbra é o sexo de quem o
realiza, de tal modo que qualquer trabalho é considerado
leve se feito por mulher, por mais cansativo, desgastante
que seja.
O mesmo
fenômeno se repete na divisão entre trabalho reprodutivo
(visto como doméstico) e trabalho produtivo. É simples, se
ela vai para a roça com o marido, é trabalho produtivo,
mesmo que o que for colhido seja tanto para vender como para
ser consumido na própria família. Se cuida da horta e das
galinhas sozinha, é trabalho doméstico, se vende ovos de vez
em quando, um pé de alface, é tão pouco que não se
considera. Indo além, se diz que ‘os homens trabalham oito
horas e as mulheres quatro, é devido o serviço de casa’, a
produção de alimentos, os/as filhos/as, a roupa,..., é
doméstico se é atribuição da mulher indeferindo o espaço,
sendo executado pela mulher basta.

Fonte: A
invisibilidade do trabalho e da geração de renda de
mulheres camponesas do MMC-RS, Almeida, 2009, p.27 a
32.
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