HistóriaMissãoOrganizaçãoLutasCampanhasGaleria de FotosMateriais e PublicaçõesArtigosPoesias e MúsicasÁudio e VídeoBoletim EletrônicoEntre em contato  

 

Mulheres Camponesas e a relação com o Trabalho

Isaura Isabel Conte

Ao falar sobre trabalho das mulheres camponesas é necessário que se leve em consideração a diversidade existente no campesinato, e desta forma Motta e Zarth (2008) ressaltam que

A diversidade da condição camponesa por nós considerada inclui os proprietários e os posseiros de terras públicas e privadas; os extrativistas que usufruem dos recursos naturais como povos das florestas, agroextrativistas, ribeirinhos, pescadores artesanais e catadores de caranguejos que agregam atividade agrícola, castanheiros, catadoras de coco babaçu, açaizeiros; os que usufruem dos fundos de pasto até os pequenos arrendatários não- capitalistas, os parceiros, os foreiros, os que usufruem a terra por cessão; quilombolas e parcela dos povos indígenas que se integram a mercados; os serranos, os caboclos e os colonos assim como os povos nas fronteiras no sul do país; agricultores familiares mais especializados, integrados aos modernos mercados e, os novos poliprodutores que resultantes dos assentamentos de reforma agrária (p. 9).

Ainda com relação aos camponeses e camponesas, Ploeg (2008) argumenta que onde quer que vivam, relacionam-se com a natureza em formas radicalmente diferentes em muitos casos. Eles e elas reformulam os processos de produção agrícola em realidades que contrastam significativamente com aquelas criadas por agricultores empresariais e capitalistas. Finalmente, moldam e desenvolvem seus recursos, tanto materiais como sociais, de modos distintos, em muitas circunstâncias.  

Em se tratando de trabalho, Nogueira (2006) afirma que ao longo do processo histórico ele tem se apresentado de inúmeras formas, atendendo as necessidades de cada momento, no entanto, se mantém sempre como um momento de efetivação das relações sociais. Visa a produção social e a reprodução da humanidade, o que nos permite afirmar que nos capacita para o ser consciente.

De outro modo, Marx e Engels (1977) elaboram todo um estudo argumentando sobre a alienação dos trabalhadores (as) por meio do trabalho, quando este se torna objeto de apropriação por parte dos capitalistas. Na obra O manifesto comunista é explicitado que a única possibilidade de geração de riquezas se dá pelo trabalho e, neste sentido defendem que ao invés da exploração que leva á alienação dos trabalhadores, ele deveria gerar humanização, ou seja, realização.

A partir do comentário de Nogueira, de que por meio do trabalho se efetiva relações sociais, podemos dizer também, amparado na mesma autora, que vai se consolidando a divisão sexual do trabalho entre homens e mulheres. Neste aspecto muitas estudiosas feministas, dentre elas, Rose Marie Muraro, Ivone Gebara, Nalu Faria, Anita Brumer, Carmen Deere, Magdalena León e tantas outras afirmam que há uma relação intrínseca entre a divisão sexual do trabalho, e o patriarcado[1]. Segundo as autoras, decorrente da ação patriarcalista o trabalho das mulheres é considerado de menos valor na sociedade e, por este motivo grande parte dele nem é considerado trabalho.

Tomemos como exemplo a arguição de Brumer (2004) e a explicitação de que apesar de as mulheres ser as que estão diretamente imbricadas na produção, armazenamento e industrialização dos alimentos, os homens são considerados responsáveis pelo provimento da família. A autora salienta ainda que o trabalho das mulheres, mesmo sendo em maior volume de tempo na roça, aparece como ajuda na unidade de produção.

Gebara (2002) ressalta que no patriarcado as mulheres são consideradas inferiores em relação aos homens e, mediante esse fato, são servis a eles e seus filhos (as) e, por isso, precisam trabalhar mais para ser  valorizadas. Não obstante, é comum perceber demonstração do amor que sentem em trabalho, em geral fazendo coisas que os agrada. Atualmente muitos estudos, pesquisas, elaborações e publicações, mencionam o fato de as mulheres camponesas trabalhar maior tempo que os homens por dia. Uma das autoras que podem ser mencionadas é Silva (2004), nas considerações que faz sobre o colonato brasileiro.

A autora afirma que as mulheres em geral, além do trabalho na lavoura mantinham hortas e pequenos roçados próximo às suas casas. Às noites e madrugadas também teciam, costuravam e preparavam alimentos para a família. Mediante esses fatores, segundo ela, foi se viabilizando o colonato, tanto é que no início desse sistema, constatou-se que as famílias chegavam a vender 30% de sua produção, o que demonstra a existência de excedente.

 Podemos rebuscar outro autor, no que tange ao trabalho das mulheres, mais especificamente tratando dos indígenas no Brasil. Ramineli (2004) nos mostra que de forma generalizada as índias trabalhavam tempo maior que os índios diariamente. Cabiam à elas a maior parte do trabalho no cultivo da alimentação, além de os trabalhos considerados domésticos. O autor afirma que as meninas, entre mais ou menos sete a quatorze anos, aprendiam todas as tarefas necessária á vida adulta como: tecer, fiar, cuidar das roças, fabricar farinha e vinhos e, sobretudo preparar a alimentação diária.   

Na afirmação de Zarth (2002), o campesinato, desde o Brasil colonial, ficou escondido como forma de trabalho, como se não existisse. Quando se torna gritante a necessidade de maior volume de produção de alimentos, devido ao aumento da população, a chamada modernização da agricultura supõe industrialização, negando outras formas encontradas no modo de vida camponesa.

De acordo com o mesmo autor os camponeses foram considerados descansados, indolentes, preguiçosos, acusados de invasores, quando após a lei de terras, procuravam buscar espaço para se estabelecer mata à dentro, ás vezes em território reservado para imigrantes. Nesse caso o autor menciona o fato de os lavradores nacionais, ou seja os camponeses, ser considerados inferiores e desvalorizados frente aos imigrantes.

Se os camponeses homens eram desvalorizados, tamanho era o ocultamento das mulheres camponesas diante da historiografia e, concretamente de algum espaço de poder para além de suas casas, mesmo sendo as que mais trabalhavam.

Parafraseando Gebara (2002), podemos dizer que por causa do patriarcado, uma parte significativa das mulheres, mantém identidades subalternas com relação aos homens, sendo os últimos, considerados superiores. O fato desse acontecimento, construído culturalmente, leva consequentemente as mulheres ser consideradas menos, também no trabalho que realizam, ou seja, o trabalho feito por elas, acaba sendo considerado serviço, numa condição subserviente.

Diante da condição de uma vida de muito trabalho e pouco reconhecimento e poder é que continua latente a necessidade de Organização das mulheres, de forma especial das empobrecidas. O trabalho como constituidor de identidade, produz também cultura e, neste sentido o MMC defende que não podemos concordar com a produção de uma cultura de sobrecarga de trabalho perpetuada por nós mesmas.

Dividir as tarefas desde as que pareçam mais simples pode parecer bastante antigo enquanto pauta de luta cotidiana, no entanto, contribui para a politização de práticas das famílias, ao passo que possibilita as mulheres sair do espaço privado de suas casas e unidades de produção para entender o universo mais amplo que os cerca.

Referências

BRUMER, Anita. Gênero e agricultura: a situação da mulher agricultura no Rio Grande do Sul. Revista Estudos Feministas. Florianópolis. Vol 12, nº 1, p. 205-227, 2004.

CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. A era da informação: economia, sociedade e cultura. Vol II. 3ª. ed. São Paulo:  Paz e Terra, 2002.

GEBARA, Ivone. Cultura e Relações de Gênero. Seminário do Cepis. São Paulo. Instituto Cajamar,  2001.

MARX, Carl. ENGELS, Frederich. Cartas filosóficas e outros escritos. São Paulo: Grijalbo, 1977.

MOTTA, Márcia; ZARTH, Paulo (orgs). Formas de resistência camponesa: visibilidade e diversidade de conflitos ao longo da história. Vol 1: concepções de justiça e resistência nos Brasis. Brasília: Editora INESP e NEAD, 2008.

NOGUEIRA, Cláudia Mazzei. O trabalho duplicado. A divisão sexual no trabalho e na reprodução: um estudo das trabalhadoras do telemarketing. São Paulo: Expressão Popular. 2006.

PLOEG, Jan Douwe Van Der. Camponeses e impérios alimentares: lutas por autonomia e sustentabilidade na era da globalização. Tradução de Rita Pereira. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.

RAMINELI, Ronald. Eva tupinambá. In: PRIORE, Mary Del. IN: Histórias das Mulheres no Brasil (org). São Paulo: Editora Contexto, 2004.

SAFFIOTI, H. (2001) apud RICHARTZ, Teresinha (2004). “Conceituado Gênero e Patriarcado.” São Paulo. Artigo impresso. PUC, 2004.

SILVA, Maria Aparecida Moraes da. De colona a Bóia Fria. In: PRIORE, Mary Del. I: Histórias das Mulheres no Brasil (org). São Paulo: Editora Contexto, 2004.

ZARTH 2002 ZARTH, Paulo Afonso. Do arcaico ao moderno. O Rio Grande do Sul agrário do século XIX. Ijuí: Unijuí, 2002.


[1] Patriarcado se estabelece com base na superioridade masculina (patris-pai- poder) num período entre mais ou menos 20.000 a 10.000 anos anos (Muraro, 2004). Para Saffioti (2001) apud Richartz (2004), o patriarcado trás implícita a noção de relações hierarquizadas entre os seres humanos com poderes desiguais e além disso, trás as ferramentas explicativas para as desigualdades transformadas em subordinação das mulheres.Castells (2002)  fala em patriarcalismo sendo que o define como uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades contemporâneas e se caracteriza pela autoridade imposta institucionalmente do homem sobre a mulher e os filhos desde o âmbito familiar. Dessa forma, ele permeia toda a organização da sociedade: produção, consumo, política, legislação, cultura etc.

 
 

Volta para a página inicial


Secretaria Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas - MMC Brasil
E-mail:
secretaria@mmcbrasil.com.br  |  Fones: (54) 3045 1066 e (61) 4063 6520  |  Passo Fundo-RS