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Mulheres Camponesas e a Cultura
Isaura Isabel Conte
A
cultura é um
dos elementos
centrais
que movem a
história. Dá para
afirmar, então, que, entre cultura, história e identidade
das pessoas, há uma
relação
intrínseca, ou
seja: na história vai
se construindo a cultura dos povos,
e, consequentemente, forjando suas identidades, ao mesmo
tempo em
que ambas transformam e constroem a própria história.
E, com
a possibilidade de mudança
dos rumos desta, é que
se visualiza a perspectiva
de reconhecimento de uma categoria
que pouco
aparece na oficialidade:
as mulheres camponesas.
De forma geral, o
campesinato é considerado atrasado e,
por consequência, os
sujeitos que
vivem, produzem e reproduzem suas vidas no campo,
também o são.
Se for feito o
recorte de gênero, as mulheres
não só
são consideradas
mais
atrasadas, bem
como
invisibilizadas na família patriarcal
camponesa. Se
não bastasse isso, durante séculos permaneceram sem
direito à
educação
escolar, prevalecendo a concepção de que
mulher não
precisa saber
quase nada
além do trabalho
da roça, da
casa
e da criação de
filhos
e filhas.
A cultura hegemônica atual pouco as considera, mas uma parcela
significativa delas tem conseguido se organizar perante a sociedade. Em processos de luta,
têm apresentado suas
reivindicações e mostrado suas
indignações
frente ao sistema, logo, estão se
colocando como
sujeitos, possuidoras de
cultura e identidade, nem
tanto subalternas. Aos poucos estão conseguindo dizer
suas palavras,
rompendo
com o silenciamento de séculos ou até de milênios.
Muitas vezes as camponesas
são menosprezadas, ridicularizadas e
imbecilizadas. Em
contraponto, se verifica
que elas,
pelos variados
jeitos
de produção e
reprodução
da vida,
em
contato com
a natureza,
consciente
ou
inconscientemente, apresentam
resistência à cultura
homogeneizante. De forma
geral, ficam um
tanto longe
dos “olhos do
Estado” e, por
isso
mesmo, possuem
certa
autonomia: vão
fazendo aquilo
que
consideram importante
para
viver e ter ao menos um pouco de felicidade
e prazer.
Ao definir cultura,
Canclini (2007, p. 15), afirma ser
“o pertencimento comunitário e o contraste
com o outro”.
No mesmo
texto, diz ser um
espaço de reprodução social e organização
das diferenças que abarca um conjunto de
processos sociais
de reprodução,
circulação
e consumo da
significação da vida
social.
Concorda-se com o autor, ao
tratar o pertencimento como
identificação das
pessoas
de determinado
grupo
social, pois
nesse pertencimento, se aborda os
jeitos diferentes dos vários
grupos na cultura
camponesa, pela
sua
riqueza de expressões
e manifestações.
Não
há como
homogeneizar
em nome
de uma cultura
camponesa. Um grupo ribeirinho, por
exemplo, pode ser
ora pescador,
ora lavrador,
ora coletor,
dependendo do que a
natureza
lhe proporciona e de quais sejam as suas
escolhas e
necessidades.
Se, durante grande parte na história,
as mulheres,
oficialmente, tiveram negado o
seu acesso à escola,
por outro
lado, conseguiram
inventar
muitas coisas a
partir
de suas
necessidades
e do chamado senso
comum,
com vistas
a diminuir a penosidade de
trabalho
e, mesmo,
possibilitar
satisfação e alegria.
Sabe-se, entretanto, que tais
criações foram desconsideradas
enquanto tecnologias. É por
isso que
pouco se sabe
sobre
técnicas de
fabricação
de teares,
roupas,
panelas, adereços,
tingimentos, adestramento de
pequenos animais, plantações,
seleção de mudas
e sementes,
enxertos
e outros, além da
conservação
de alimentos de
forma
natural,
arquitetura
etc. Tudo
isso
é parte da
cultura
camponesa, que
passa
de geração
em
geração. Algumas coisas se perdem, ao passo
que outras se modificam, obviamente.
O antropólogo Garrafa
esclarece
que a cultura
constitui uma totalidade
que
compreende o universo
simbólico em que atuam os
humanos. Abarca,
desde os bens
materiais,
objetos
simples e
expressões
de arte,
assim
como
comportamentos
frente a esta realidade
complexa. É a
configuração
das ideias, crenças, formas de pensamento
e obras dos
seres
humanos que
orienta valores e se manifesta em seus atos, nas artes e nos artefatos criados.
A partir
do autor, se
compreende que o campesinato é um
território rico
de expressões e de
diversidade
e, como
já
afirmado, complexo. E isto constitui a cultura
do povo
que
vive do trabalho no
campo,
não raras vezes
despercebido e desconsiderado
em
suas demandas.
É comum
aparecer
a cultura camponesa
em
muitos discursos
e imagens
representando atraso. A própria
educação rural
tratou os camponeses e camponesas
como
desqualificados, acomodados e “avessos ao progresso”.
Sabe-se que as mudanças socioculturais
são
demoradas e dependem, em última instância,
da pressão
que
os grupos
vão
exercendo sobre a
mesma,
em vista
de alterações. No momento atual, as mulheres
possuem cotas na
política
(partidária), sendo
que
isso se estendeu a
vários
outros setores:
no entanto, no
senso
comum generalizado, continuam sendo
responsabilizadas pelas tarefas
domésticas, como se
esta fosse uma condição do ser mulher.
Efetivamente,
as mulheres camponesas, no Brasil, passam a exercitar o direito
do voto
somente
na década de 1980,
apesar
de ser uma
conquista
de 1932. O trabalho das
mulheres
camponesas passa a
ser
considerado profissão só a partir de 1988, sendo que a maioria
delas nem
documentos
pessoais possuíam para
acessar seus direitos
no caso de
aposentadoria
ou outro
previsto na Lei
dos Segurados
Especiais
(MMC, 2008).
Contudo, não se pode pensar que as mudanças culturais se dão
apenas
pelas leis e/ou
por decreto.
Se houve avanço no
que
tange à consideração
das mulheres, foi, acima
de tudo, pelas
lutas
desencadeadas por
elas, forçando mudanças socioculturais.
Embora, as leis
contribuam, em
alguns aspectos,
para determinadas mudanças,
nem
sempre dão conta
da diversidade de
situações
de um
país
multiétnico e multifacetado como
o Brasil. Outro
elemento
importante das
conquistas
e maior
visibilidade
feminina, incluindo as camponesas,
deve-se, sem
dúvida, à luta
e aos debates
feministas, os
quais
forçaram abertura,
mesmo
que causando
certo
desconforto.
A desacomodação de uma
estabilidade cultural gera desconforto e incômodo.
Sem dúvida
a maior
visibilidade
e o rompimento
com
a dita
passividade
das mulheres
camponesas na atualidade são fatores dessa desestabilidade
que
mexem com uma
cultura
machista
patriarcal. Dessa forma,
vão
se dando passos
para
pequenas alterações dos modos de ser, pensar e agir. Sabe-se, no entanto, que o reconhecimento
e a participação das mulheres
camponesas, de forma legitimada,
é algo
bastante recente.
A partir
daí, se percebe a possibilidade delas se construírem
sujeitos
com outra
identidade: não
subalterna. Já dizia Santos (2001) que não se constrói outra
cultura sem
conflito. Por
isso, as mulheres
não podem temê-lo, precisam enfrentá-lo
tendo em
vista
superarem a cultura
do medo, da
culpa, da inferioridade, construída
historicamente. Nesta sociedade,
considerada de grande avanços,
é hora de
enxergar,
admitir e avaliar os retrocessos e os entraves
históricos, sendo
um
deles a questão das
mulheres; neste caso,
com
recorte específico
das camponesas.
A contribuição de uma feminista
evidencia o empoderamento das
mulheres, um grande desafio também para as camponesas:
O que
propomos é uma coisa que ainda não
existe, por
isso
é utopia (...).
Propomos uma reapropriação do nosso
poder, de nosso
poder
roubado. Não se
rouba
só casa.
Não se rouba
só terra, se rouba poder. Rouba-se poder quando se
convence outros
que
eles não
têm o mesmo
poder.
Isto é roubo,
diminuição. Nós,
mulheres, não
queremos entrar na
estrutura
da diminuição (...)
queremos, reapropriar-nos de um
poder
que nos
constitui (Gebara, 2001, p. 67).
Mexer na estrutura de poder não é uma tarefa
tão simples,
pois vai do campo
simbólico ao material,
sendo que isto
implica uma correlação
de forças na sociedade, ou seja, no âmbito
classista e cultural ao mesmo tempo. Diante
disso, é importante
salientar
que o que
é produzido ou
impedido de existir, enquanto expressão da cultura,
depende, diretamente,
do contexto social
em que
se vive. Por
isso, a forma
de organização dos
meios
de produção
da existência é determinante
na cultura e
identidade
das pessoas.
1998.
Referências:
CANCLINI, Néstor García.
Diferentes,
desiguais
e desconectados: mapas
da interculturalidade. 2. ed. Rio
de Janeiro: Editora
UFRJ, 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.
32. ed. Rio de
Janeiro:
Paz e Terra,
1987.
GARRAFA, Rodolfo Sánchez.
La identidad cultural y la interculturalidade en el
pensamiento de Paulo Freire.
Texto
digitado sem ano.
GEBARA, Ivone. Cultura e relações
de gênero.
Seminário
do Cepis. São Paulo: Instituto Cajamar, 2001.
MARX, Carl e ENGELS, Frederich.
Cartas filosóficas e
outros
escritos. São
Paulo: Editorial
Grijalbo, 1977.
MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS. Gênero,
sexualidade e direitos das mulheres.
Passo Fundo:
Gráfica Battistel, 2008.
SANTOS, Boaventura. Dilemas do Nosso Tempo.
Revista Educação e Realidade. Jan/jul 2001.
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