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Mulheres Camponesas e a Cultura

Isaura Isabel Conte

A cultura é um dos elementos centrais que movem a história. Dá para afirmar, então, que, entre cultura, história e identidade das pessoas, há uma relação intrínseca, ou seja: na história vai se construindo a cultura dos povos, e, consequentemente, forjando suas identidades, ao mesmo tempo em que ambas transformam e constroem a própria história.  E, com a possibilidade de mudança dos rumos desta, é que se visualiza a perspectiva de reconhecimento de uma categoria que pouco aparece na oficialidade: as mulheres camponesas.

De forma geral, o campesinato é considerado atrasado e, por consequência, os sujeitos que vivem, produzem e reproduzem suas vidas no campo, também o são. Se for feito o recorte de gênero, as mulheres não são consideradas mais atrasadas, bem como invisibilizadas na família patriarcal[1] camponesa. Se não bastasse isso, durante séculos permaneceram sem direito à educação escolar, prevalecendo a concepção de que mulher não precisa saber quase nada além do trabalho da roça, da casa e da criação de filhos e filhas.

A cultura hegemônica atual pouco as considera, mas uma parcela significativa delas tem conseguido se organizar perante a sociedade. Em processos de luta, têm apresentado suas reivindicações e mostrado suas indignações frente ao sistema, logo, estão se colocando como sujeitos, possuidoras de cultura e identidade, nem tanto subalternas. Aos poucos estão conseguindo dizer suas palavras[2], rompendo com o silenciamento de séculos ou até de milênios.

Muitas vezes as camponesas são menosprezadas, ridicularizadas e imbecilizadas. Em contraponto, se verifica que elas, pelos variados jeitos de produção e reprodução da vida, em contato com a natureza, consciente ou inconscientemente, apresentam resistência à cultura homogeneizante.  De forma geral, ficam um tanto longe dos “olhos do Estado” e, por isso mesmo, possuem certa autonomia: vão fazendo aquilo que consideram importante para viver e ter ao menos um pouco de felicidade e prazer.

Ao definir cultura, Canclini (2007, p. 15), afirma ser “o pertencimento comunitário e o contraste com o outro”. No mesmo texto, diz ser um espaço de reprodução  social e organização das  diferenças que abarca um conjunto de processos sociais de reprodução, circulação e consumo da  significação da vida social.

Concorda-se com o autor, ao tratar o pertencimento como identificação das pessoas de determinado grupo social, pois nesse pertencimento, se aborda os jeitos diferentes dos vários grupos na cultura camponesa, pela sua riqueza de expressões e manifestações. Nãocomo homogeneizar em nome de uma cultura camponesa. Um grupo ribeirinho, por exemplo, pode ser ora pescador, ora lavrador, ora coletor, dependendo do que a natureza lhe proporciona e de quais sejam as suas escolhas e necessidades.

Se, durante grande parte na história, as mulheres, oficialmente, tiveram negado o seu acesso à escola, por outro lado, conseguiram inventar muitas coisas a partir de suas necessidades e do chamado senso comum, com vistas a diminuir a penosidade de trabalho e, mesmo, possibilitar satisfação e alegria. Sabe-se, entretanto, que tais criações foram desconsideradas enquanto tecnologias. É por isso que pouco se sabe sobre técnicas de fabricação de teares, roupas, panelas, adereços, tingimentos, adestramento de pequenos animais, plantações, seleção de mudas e sementes, enxertos e outros, além da conservação de alimentos de forma natural, arquitetura etc. Tudo isso é parte da cultura camponesa, que passa de geração em geração. Algumas coisas se perdem, ao passo que outras se modificam, obviamente.

O antropólogo Garrafa esclarece que a cultura constitui uma totalidade que compreende o universo simbólico em que atuam os humanos. Abarca, desde os bens materiais, objetos simples e expressões de arte, assim como comportamentos frente a esta realidade complexa. É a configuração das ideias, crenças, formas de pensamento e obras dos seres humanos que orienta valores e se manifesta em seus atos, nas artes e nos artefatos criados.

A partir do autor, se compreende que o campesinato é um território rico de expressões e de diversidade e, como afirmado, complexo. E isto constitui a cultura do povo que vive do trabalho no campo, não raras vezes despercebido e desconsiderado em suas demandas. É comum aparecer a cultura camponesa em muitos discursos e imagens representando atraso. A própria educação rural tratou os camponeses e camponesas como desqualificados, acomodados  e “avessos ao progresso”.

Sabe-se que as mudanças socioculturais são demoradas e dependem, em última instância, da pressão que os grupos vão exercendo sobre a mesma, em vista de alterações. No momento atual, as mulheres possuem cotas na política (partidária), sendo que isso se estendeu a vários outros setores: no entanto, no senso comum generalizado, continuam sendo responsabilizadas pelas tarefas domésticas, como se esta fosse uma condição do ser mulher.

Efetivamente, as mulheres camponesas, no Brasil, passam a exercitar o direito do voto somente na década de 1980, apesar de ser uma conquista de 1932. O trabalho das mulheres camponesas passa a ser considerado profissão a partir de 1988, sendo que a maioria delas nem documentos pessoais possuíam para acessar seus direitos no caso de aposentadoria ou outro previsto na Lei dos Segurados Especiais[3] (MMC, 2008).

Contudo, não se pode pensar que as mudanças culturais se dão apenas pelas leis e/ou por decreto. Se houve avanço no que tange à consideração das mulheres, foi, acima de tudo, pelas lutas desencadeadas por elas, forçando mudanças socioculturais. Embora, as leis contribuam, em alguns aspectos, para determinadas mudanças, nem sempre dão conta da diversidade de situações de um país multiétnico e multifacetado como o Brasil. Outro elemento importante das conquistas e maior visibilidade feminina, incluindo as camponesas, deve-se, sem dúvida, à luta e aos debates feministas, os quais forçaram abertura, mesmo que causando certo desconforto.

A desacomodação de uma estabilidade cultural gera desconforto e incômodo. Sem dúvida a maior visibilidade e o rompimento com a dita passividade das mulheres camponesas na atualidade são fatores dessa desestabilidade que mexem com uma cultura machista patriarcal. Dessa forma, vão se dando passos para pequenas alterações dos modos de ser, pensar e agir. Sabe-se, no entanto, que o reconhecimento e a participação das mulheres camponesas, de forma legitimada, é algo bastante recente.

A partir daí, se percebe a possibilidade delas se construírem sujeitos com outra identidade: não subalterna.  Já dizia Santos (2001) que não se constrói outra cultura sem conflito. Por isso, as mulheres não podem temê-lo, precisam enfrentá-lo tendo em vista superarem a cultura do medo, da culpa, da inferioridade, construída historicamente. Nesta sociedade, considerada de grande avanços, é hora de enxergar, admitir e avaliar os retrocessos e os entraves históricos, sendo um deles a questão das mulheres; neste caso, com recorte específico das camponesas.

A contribuição de uma feminista evidencia o empoderamento das mulheres, um grande desafio também para as camponesas:

O que propomos é uma coisa que ainda não existe, por isso é utopia (...). Propomos uma reapropriação do nosso poder, de nosso poder roubado. Não se rouba casa. Não se rouba terra, se rouba poder. Rouba-se poder quando se convence outros que eles não têm o mesmo poder. Isto é roubo, diminuição. Nós, mulheres, não queremos entrar na estrutura da diminuição (...) queremos, reapropriar-nos de um poder que nos constitui (Gebara, 2001, p. 67).

Mexer na estrutura de poder não é uma tarefa tão simples, pois vai do campo simbólico ao material, sendo que isto implica uma correlação de forças na sociedade, ou seja, no âmbito classista e cultural ao mesmo tempo. Diante disso, é importante salientar que o que é produzido ou impedido de existir, enquanto expressão da cultura, depende, diretamente, do contexto social em que se vive.  Por isso, a forma de organização dos meios de produção[4] da existência é determinante na cultura e identidade das pessoas.

1998.

Referências:

CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 32. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GARRAFA, Rodolfo Sánchez. La identidad cultural y la interculturalidade en el pensamiento de Paulo Freire. Texto digitado sem ano.  

GEBARA, Ivone. Cultura e relações de gênero. Seminário do Cepis. São Paulo: Instituto Cajamar,  2001.

MARX, Carl e ENGELS, Frederich. Cartas filosóficas e outros escritos. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977.

MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS. Gênero, sexualidade e direitos das mulheres. Passo Fundo: Gráfica Battistel, 2008.

SANTOS, Boaventura. Dilemas do Nosso Tempo. Revista Educação e Realidade. Jan/jul 2001.


[1] Do patriarcalismo. Segundo Castells (1999), o patriarcalismo é uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades contemporâneas que se caracteriza pela autoridade imposta institucionalmente do homem sobre a mulher e os filhos no âmbito familiar. Dessa forma, ele permeia toda a organização da sociedade: produção, consumo, política, legislação e cultura.

[2] No sentido freireano, conforme  Pedagogia do Oprimido.

[3] Lei que vincula os trabalhadores rurais à seguridade social a partir da Constituição de 1988, que se deu com amplo processo de luta, especialmente das mulheres do campo. Esta lei garante benefícios como aposentadoria, salário maternidade, pensão em caso de morte do cônjuge, entre outros

[4] Marx e Engels (1977), ver referências bibliográficas.

 
 

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